Adeus a um amor!
Porque me amas,
Dizes que podíamos ter sido o que nunca fomos!
Sofres com medo de sofrer
E porque me amas,
Procuras-me com o medo de morrer!
E eu estou lá,
Porque te amo!
Contigo tenho medo e me lamento,
Contigo vivo e morro e rio e choro,
Contigo amo e sonho e espero,
Contigo sei que um dia, talvez,
Nós sim,
Vivamos outra vez!
Há quantos anos a tristeza, a culpa e o horror se apossaram de ti?
Há quantos anos te permites sobreviver no limiar da fronteira?
Quando a tua filha partiu, esqueceste que tinhas direito à vida e com ela quiseste partir.
Insónias, depressões, tormentos que foste apaziguando, procurando conforto e solidariedade na desgraça alheia, comutando sentimentos e emoções, construindo uma paz frágil com os elementos que te derrotaram.
Os teus olhos, não mais pararam de chorar e no encalce de uma justificação, escolheste ajudar aqueles que a mesma dor sentiam.
Perder um filho é uma prova muito dura e se enfrentavas a tormenta e a culpa com coragem e de cara erguida, afundavas-te na saudade e no cepticismo de teorias que não te alimentavam, pois nenhuma te devolvia o calor e amor da relação tão abruptamente cortada.
E passaste a viver na procura do sentido, procurando relações que apenas podiam ser fugazes, porque comprometimento, para ti, apenas podia existir em função da perda e do amor para com ela.
Mas foste um herói, porque mesmo só e consciente que nada nem ninguém iria tomar o lugar daquela que tão dramaticamente desapareceu, procuravas diariamente a ilusão da vida, não descuravas o confronto em prol da justiça e com as tuas palavras de conforto, nunca permitias que alguém se sentisse menos importante na desgraça.
E o tempo foi passando!
Sofrias em silêncio a dor na alma e as do corpo, serviam-te de punição e de refúgio e talvez por isso, só as afastavas de um modo ilusório.
E tu sabias que o inevitável não tardaria, e queria-lo e desejava-lo mas uma dor física maior tinhas medo de não conseguir suportar.
No dia em que te conheci soube o que nos esperava, pois vi no teu olhar e semblante, o vazio da existência e a dor da revolta, o amor que te prendia à vida e à morte e percebi qual iria ser a minha parte em ambas e fiquei à espera que tu o compreendesses.
E esperei, esperei até que o disseste, mas aí era já tarde para ti, para mim e para a vida que devíamos ter vivido.
E hoje, apenas vou servir de amparo, de consolo a mais uma mágoa daquilo que não tiveste coragem de fazer.
Sentias-te um traidor e isso impediu-te de ser feliz, impediu-te de adiares a ida para junto daquela por quem o teu coração ansiava e enquanto negavas essa vontade, diariamente construías o seu caminho.
Quantos por este mundo agem rigorosamente da mesma maneira, indiferentes à possibilidade de serem felizes, carregando fardos pesadíssimos, apenas porque lhes falta a coragem de embarcarem na diferença , de abrirem a porta do Desejo – como diria o nosso amigo Paulo Coelho – preferindo continuar a navegar na casa do Medo, sem perceberem que o ponto de entrada na casa do Desejo seria o único momento de dor e mesmo essa, com bom sabor, porque nos iria transpor para uma vida de libertação , enquanto que, ao nos deixarmos ficar na casa do Medo, estaremos continuadamente agarrados às nossas frustrações, sonhando com a Vida, mas diariamente a construir a Morte.
Bem hajam
Filipa Barros

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