House poems

Este blog é só para quem gosta de escrever. Publicarei todos os originais enviados.

sábado, abril 01, 2006

Adeus a um amor!

Porque me amas,

Dizes que podíamos ter sido o que nunca fomos!

Sofres com medo de sofrer

E porque me amas,

Procuras-me com o medo de morrer!

E eu estou lá,

Porque te amo!

Contigo tenho medo e me lamento,

Contigo vivo e morro e rio e choro,

Contigo amo e sonho e espero,

Contigo sei que um dia, talvez,

Nós sim,

Vivamos outra vez!

Há quantos anos a tristeza, a culpa e o horror se apossaram de ti?

Há quantos anos te permites sobreviver no limiar da fronteira?

Quando a tua filha partiu, esqueceste que tinhas direito à vida e com ela quiseste partir.

Insónias, depressões, tormentos que foste apaziguando, procurando conforto e solidariedade na desgraça alheia, comutando sentimentos e emoções, construindo uma paz frágil com os elementos que te derrotaram.

Os teus olhos, não mais pararam de chorar e no encalce de uma justificação, escolheste ajudar aqueles que a mesma dor sentiam.

Perder um filho é uma prova muito dura e se enfrentavas a tormenta e a culpa com coragem e de cara erguida, afundavas-te na saudade e no cepticismo de teorias que não te alimentavam, pois nenhuma te devolvia o calor e amor da relação tão abruptamente cortada.

E passaste a viver na procura do sentido, procurando relações que apenas podiam ser fugazes, porque comprometimento, para ti, apenas podia existir em função da perda e do amor para com ela.

Mas foste um herói, porque mesmo só e consciente que nada nem ninguém iria tomar o lugar daquela que tão dramaticamente desapareceu, procuravas diariamente a ilusão da vida, não descuravas o confronto em prol da justiça e com as tuas palavras de conforto, nunca permitias que alguém se sentisse menos importante na desgraça.

E o tempo foi passando!

Sofrias em silêncio a dor na alma e as do corpo, serviam-te de punição e de refúgio e talvez por isso, só as afastavas de um modo ilusório.

E tu sabias que o inevitável não tardaria, e queria-lo e desejava-lo mas uma dor física maior tinhas medo de não conseguir suportar.

No dia em que te conheci soube o que nos esperava, pois vi no teu olhar e semblante, o vazio da existência e a dor da revolta, o amor que te prendia à vida e à morte e percebi qual iria ser a minha parte em ambas e fiquei à espera que tu o compreendesses.

E esperei, esperei até que o disseste, mas aí era já tarde para ti, para mim e para a vida que devíamos ter vivido.

E hoje, apenas vou servir de amparo, de consolo a mais uma mágoa daquilo que não tiveste coragem de fazer.

Sentias-te um traidor e isso impediu-te de ser feliz, impediu-te de adiares a ida para junto daquela por quem o teu coração ansiava e enquanto negavas essa vontade, diariamente construías o seu caminho.

Quantos por este mundo agem rigorosamente da mesma maneira, indiferentes à possibilidade de serem felizes, carregando fardos pesadíssimos, apenas porque lhes falta a coragem de embarcarem na diferença , de abrirem a porta do Desejo – como diria o nosso amigo Paulo Coelho – preferindo continuar a navegar na casa do Medo, sem perceberem que o ponto de entrada na casa do Desejo seria o único momento de dor e mesmo essa, com bom sabor, porque nos iria transpor para uma vida de libertação , enquanto que, ao nos deixarmos ficar na casa do Medo, estaremos continuadamente agarrados às nossas frustrações, sonhando com a Vida, mas diariamente a construir a Morte.

Bem hajam

Filipa Barros

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